O que aconteceu depois…
Ao terminar os 42 e pouco, um mar de voluntários te entregam além da almejada medalha: água, gatorade, e uma manta térmica para o frio. Muitas mesas com pães, salgados e bananas, e claro, um pouco mais à frente a tal da cerveja prometida. E aqui um adendo, o nome da cerveja é 312 – eu estava achando esse nome nada atraente para uma cerveja, me lembrava o perfume 212 da Carolina Herrera – mas depois descobri que 312 é o DDD da localidade em Chicago aonde a tal da cerveja prometida era fabricada. Peguei o tal copo de cerveja – banana – pão – salgados e sai em direção ao local aonde tiramos uma foto com a palavra finisher atrás. Um pequeno degrau a frente, e adivinhem… a caimbrã! Simplesmente com toda a força. Curvei-me para frente – segurei a cerveja forte – nada pode cair agora, nem eu, nem o pãozinho – nem a cerveja!!! Perco a noção de tudo a dor é forte como nunca senti antes. O fotógrafo da organização chama os paramédicos, em dois minutos vieram ao meu encontro: dois paramédicos, um médico e uma moça empurrando uma cadeira de rodas. E em português mesmo eu gritei: cheguei correndo aqui, depois de 42 k, saio andando daqui! Cadeira de rodas nunca! Mas claro, fui super bem atendida, me alonguei e voltei ao normal. Mas gritei: cadê a cerveja!!!!???? – Acontece que durante a dor o fotógrafo pegou minha cerveja e muito generosamente segurou, até eu estar bem novamente, ufa!!. Foto tirada, saí para o guarda-volumes e depois ao encontro de meus queridos heróis.
Foi uma longa caminhada, da chegada até o centro do Millennium Park aonde, Ernani, Coelho e Claudio me esperavam tão felizes, que eu me senti uma chata, sentindo aquela sensação horrível pós-caimbrã e andando com dificuldade. Tivemos que encarar uns 800 metros até o meu hotel, e uma escadaria que foi um martírio. Mas tenho que confessar, depois que cheguei no hotel, tomei banho e um advil – fui gradativamente melhorando, e duas horas depois ao sair para jantar, eu já me sentia bem melhor. Agora o que restava era aquela dor deliciosa nas coxas. Dor do dever cumprido! E o cartaz daquela senhora, perto da chegada: You are our inspiration, ficou na minha cabeça.
Quem diria!! Há 10 anos atrás quando decidi perder peso, eu era a criatura mais sedentária do planeta, usando manequim 56 – pesando algo na casa dos 106 quilos – como poderia imaginar que estaria completando a terceira maratona. Não são só três vezes 42,195 – mas 3 vezes o treino para os 42,195! E aí a coisa pega. Alguns corredores não querem fazer Maratona – só por causa do treino. E eu digo, o mais gostoso de tudo isso é o treino. Mas essa sou eu né?…
Tenho algumas questões na minha mente agora … qual será a próxima? devo consolidar os 21 km, fazendo mais meias? paro um ano? ainda não sei nada!… Só sei que vou curtir essa medalha bastante.
Verinha Abruzzini

Foto tirada durante a Maratona
Deixa a vida me levar ….
Gente! Cheguei hoje dia 16 de Outubro, depois de um vôo super demorado, Dallas – São Paulo. Não me perguntem o que a American Airlines fez, mas eu fui de Chicago para Dallas e só depois embarquei para o Brasil. Mas foi legal, aeroporto super moderno, lotado, e com direito a encontrar maratonista no aeroporto. Eita raça! Em todo lugar você acaba encontrando um.
Bem, acredito que vocês estejam curiosos sobre como foi a corrida em Chicago, eu resolvi contar em KMs – me lembro de tudo que aconteceu, o que vi, e principamente o que senti. Então vamos aos fatos e sensações:
Largada: Frio Frio Frio – de rachar os ossos e Vento Vento Vento. Os meus pés estavam tão gelados, que até o quilômetro 6 – eu senti os dois completamente adormecidos. Essa primeira parte da prova até o quilômetro 6, 7 e 8 – você corre em ruas do centro da cidade, algumas bem pequenas, existe um certo calor humano, todos próximos. As calçadas lotadas de gente – famílias inteiras – nos dando força. A gente ia precisar. Destaque dessa etapa: perto do quilômetro 5, passo na frente da Associação Anti Crueldade Animal. Uma instituição com 110 anos de idade, que resgata os animais abandonados e promove a adoção . Na hora me veio na mente meus dois cachorros resgatados: Valente e Mel! Saudade!… Coração bate forte, arrepio da espinha. Vamos temos muito caminho pela frente!
Quilômetro 10: Estamos dentro do Lincoln Park e meu relógio marca 1 hora e 7 minutos. Penso estou rápida demais, eu fiz a Prova da Graacc nesse tempo. Começo a curtir o lugar – deve ser o Central Park deles. Claro penso no querido Ibirapuera que me acolheu durante esses 4 meses, nas madrugadas de chuva e frio. Lembro daquele treino de 30 k que fui a primeira a chegar no parque. Destaque dessa etapa: Passo um brasileiro e digo! Vamos Brasil! Ele acena com a mão.
Quilômetro 15: Primeira estação de atendimento médico que me chama a atenção. As filas para os banheiros são imensas. E já vejo corredores sentados nas tendas de atendimento. Um sentimento de pena e medo me vem na mente. Fico me questionando. Será que eles cairam? Será que já passaram mal? Tiro os pensamentos ruins da cabeça – olho para o lado e vejo um casal com duas camisetas iguais, no entanto numa estava escrito Husband (Marido) e na outra Wife (Esposa). Jogo meu moleton fora. Destaque desse trecho: Passo um grupo de maratonistas que usa o Método Jeff Galoway (Corrida e Caminhada).
Quilômetro 20: Um retão que não terminava nunca, fez parte do trecho do 16 até 0 19 mais ou menos. Eu só pensava em chegar logo na Meia Maratona. Confiança…. Alegria… Determinação…. Jogo a camiseta de manga longa fora. Agora vou assim até o final. O retão acaba, vem uma ponte. Chego na meia maratona: Tempo: 2 horas 34 minutos. Tempo correto e conservador… não é hora de records. Destaque dessa etapa: Leio um cartaz que uma moça segura na calçada: Pain is Temporary, Pride is Forever – A Dor é temporária o Orgulho é pra Sempre – VAI VERINHA!!
Quilômetro 25: Quase na marca dos 25, eu ouço bem ao longe… VERA VERA VERA, pensei – não é possível, até aqui?!!! Ah Era o Sakamoto… agora estavamos juntos, ele parecia bem e com ele uma brasileira me pergunta: Você corre no parque? Respondo que sim … ela me passa e o Sakamoto fica… curtimos juntos uns quilômetros numa área residencial de Chicago… árvores lindas, que belo outono….. Sakamoto quer conversa, peço desculpas e digo, que não vou conseguir conversar… ele se despede …. e vai…. Destaque desse momento: Passa pela minha cabeça tentar fazer a prova ao lado dele, mas uma inspiração aparece ….. eu poderia quebrar, melhor não. Ele me dá a mão um beijo na testa e segue.
Quilômetro 30: Penso na Marimélia que está nos “rastreando” via site. Acelero para chegar logo nos 30. Um telão transmite ao vivo… Estou muito bem e resolvo acelerar apenas um pouco. Saimos de Little Italy e o público continua ativo nas ruas … Ouço sinos… Gritos de Vai Brasil! Destaque desse trecho: Passo o Husband e Wife. Ela pára na calçada muito mal, resolvo não olhar. Tomara que eles tenham conseguido. Agora vejo uma moça com a camiseta escrita em Inglês: The woman who starts the race is not the same woman who finishes the race. A mulher que começou essa corrida não é a mesma que termina. Vem aquele arrepio novamente … Faltam menos de 12 k. Go Verinha Go …
Quilômetro 32: Começo a sentir vontade de comer algo diferente do que carbo-hidrato gel. Chego no posto de alimentação e hidratação - e susto: acabaram as bananas. Tento não pensar no assunto. Tento esquecer a fome e o desgaste. Abro um GU e tomo com Gatorade. As luvas estão molhadas e lambuzadas - hora de deixas-las prá trás, mas o frio é muito … tiro a esquerda e reluto uns minutos para jogar a outra fora.
Quilômetro 37: A cabeça pensa em tudo – preciso terminar isso logo! Os meninos estão me esperando. Olho o relógio. Acho que faço em 5 e 11. Uma curva para esquerda e vejo uma camiseta brasileira, era um corredor da MPR. Corro forte… Vai … Passa Vera … Passei, olho para frente, um rapaz com a camiseta da Guatelama … vai vai … passo sem olhar para o lado. Um cara do México emparelha… Não México não! E fui assim lidando com essas ultrapassagens. Vejo um posto de água, e a banana salvadora estava lá.
Quilômetro 40: Venho de uma reta (pra variar) Só tem reta nessa maratona!- aquela sensação de que isso nunca termina. E vem a caimbrã. Na perna direita. Da sola até o meio do glúteo. Não pára Vera!! Reduzo drasticamente. Mudo a passada para não sentir dor. Vem um destapontamento: não faço mais em 5 e 11. Uma sensação de tristeza me invade. Parece que me arrasto – Vejo muitos andando… as pessoas nas calçadas gritam – balançam os sinos …. eu só queria que aquilo terminasse logo e aí vem a ajuda do maravilhoso público que vai às ruas, mesmo com um frio danado, e um cartaz, na mão de uma senhora, transformou meu pensamento:
YOU ARE OUR INSPIRATION - Se eu sou inspiração de alguém, tá na hora de fazer bonito! Manda brasa Verinha! Agora só faltam 2k
Quilômetro 42: Curva para direita, e uma subida! Mas isso lá é hora de ter subida? Um barulho ensurdecedor. Eu grito alto: AGORA NÃO É HORA DE PARAR VERA! VAI! VAI! VAI… Sinos… Gritos! Curva a esquerda, lá no fundo eu vejo FINISH. Não ouço a música do IPOD – não ouço ninguém. Meu coração bate forte – um coração que treinou 4 meses – 950 quilômetros – renunciou à aniversários, festas, baladas. Agora é comigo!….E sempre foi comigo. Isso é só pra mim! Abro as passadas … Coloco as mãos para cima. Deixa a vida me levar!!! Cheguei!… Valeu muito à pena!!
Verinha Abruzzini

Meu companheiro de milhas e milhas
EU FIZ
Eu Fiz! I did it ! I’ve made it!! Sem duvida uma das provas mais legais da minha vida … Assim que tiver tempo contarei as aventuras durante a prova, porque claro, aconteceram muitas coisas … Agora fica o resultado: 5 horas e 22 minutos – sem parar de correr um instante. Os meninos foram MUITO BEM – e a minha alegria em contar que o Claudio conseguiu indece para BOSTON!. Ou seja, ontem ao jantarmos ja comecei a ouvir uns estudos para a Maratona de Boston (conto isso depois).
O frio foi aliado e bandido durante a prova. Tive que usar a moda cebola. Larguei com um moleton – 3 camisetas – gorro e luvas e fui tirando algumas dessas pecas ao longo da corrida.
A prova contou com quase 45.000 pessoas!! 1.5 milhao de espectadores nas ruas. Centenas de voluntarios.
Eu me diverti muito… e foi pra isso que vim. Missao cumprida!
Vera Abruzzini – Atleta Ekena – Completou a terceira maratona da sua vida!!
Que venha a proxima!!

Jantar no ESPN SPORTS BAR - com Medalha!